É o café gelado no pano xadrez vermelho e branco,
da mesa de canto da pra ver uma fresta da janela, batendo sol no azulejo de barro da cozinha,
um dia eu devia limpar eles, ou deixar quieto, pra ver o quanto eles duram.
vou deixar o copo na pia pra ver se lembro de lava-lo mais tarde também.
Eu tenho que pegar o trem, não posso me atrasar, e nunca tem lugar, eu vou ficar olhando pra cidade segurando nas barras de lá, e o sol vai bater na minha cara, já está batendo, já estou no trem.
eu não quero olhar pros lados, não quer ver se tem alguém que eu conheço aqui, e eu sei que não tem, é muito cedo pra isso, vou continuar olhando reto, tem luz, e fica tudo escuro, e eu demoro pra piscar.
40 minutos, exatos, ou não, deve ter uns milésimos quebrados, um dia reparo nisso, é descer e virar na rua com os muros pichados, "E tem algo mais", e tem sombra, e tem mato, e tem 4 lados, mas não tem muito como ver o que tem dentro.
Queria saber desenhar, ai o tempo passaria mais rápido aqui, mas vou me virar, 19 horas eu vou embora, e é o trem que eu gosto, não que eu gosto exatamente, mas é o que eu me adapto mais, entende? e ele ta passando agora, e não tem lugar, mas tudo bem, o sol não bate na minha cara, na verdade, acho que já me calejei dele.
A luz fosforescente bate no vidro e mostra eu mesmo, pálido, olheiras, amargo, e o azulejo ta sujo, e o copo na pia, e eu da cor da pia, da armação da janela, da cor da fresta entre os azulejos, das barras do trem, da cor real dos muros pichados, do ponteiro do relógio, da minha blusa, e de qualquer coisa dentro de mim, e de qualquer coisa que eu penso, pois eu penso de mais.
Cinza.